Especialistas ressaltam importância de indígenas na restauração de terras

No Dia da Amazônia, comemorado neste sábado (5), especialistas enfatizam a necessidade urgente de investimentos na recuperação de terras degradadas em territórios indígenas. Essa recuperação vai além do simples plantio de árvores, englobando a proteção de nascentes, o aumento da segurança alimentar, a reintrodução de espécies utilizadas pelas comunidades, o fortalecimento de conhecimentos tradicionais e a geração de renda.

A discussão se torna ainda mais pertinente à medida que o Brasil amplia suas metas de restauração de áreas degradadas. Durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, o país comprometeu-se a restaurar mais de 163 mil quilômetros quadrados até 2030, incluindo esforço direcionado a territórios indígenas.

Dados do TerraClass de 2022 revelam que as terras indígenas na Amazônia possuem 952,3 mil hectares de áreas degradadas, a maior parte ocupada por pastagens, além de 24,4 mil hectares destinados à agricultura e 18,9 mil hectares à mineração. Também foram identificados 840,5 mil hectares de vegetação secundária, totalizando um potencial de restauração estimado em 1,79 milhão de hectares nesses territórios.

Apesar das pressões, as terras indígenas permanecem como algumas das áreas mais conservadas do Brasil. O Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas, divulgado em 2026, indica que apenas 1,7% da perda de vegetação nativa no Brasil entre 2019 e 2025 ocorreu em terras indígenas.

Diana Nascimento, indígena do povo Kaingang e especialista da The Nature Conservancy Brasil (TNC), argumenta que a participação dos povos indígenas transforma a definição de restauração. Para ela, “quando os povos indígenas assumem o protagonismo da restauração, o território deixa de ser visto apenas como uma área onde precisamos recuperar vegetação e passa a ser entendido a partir de sua relação com as pessoas, a cultura, a alimentação, os conhecimentos tradicionais e os modos de vida”.

Diana destaca que a quantidade de hectares restaurados não é o único critério de sucesso. É essencial considerar quais espécies são significativas para cada povo, quais alimentos e conhecimentos precisam ser resgatados e quais áreas possuem prioridade, sempre respeitando a gestão e a autonomia do território.

A identificação das áreas prioritárias para restauração enfrenta desafios, como a vasta extensão dos territórios e a limitação de recursos. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) criou um sistema integrado de informações que auxilia na tomada de decisões sobre conservação e restauração em terras indígenas. Este sistema, desenvolvido em parceria com a TNC Brasil e outras organizações, reúne dados sobre degradação, segurança hídrica, biodiversidade, mudanças climáticas, governança territorial, sustentabilidade, educação e saúde.

Guillermo Florez Montero, líder de Ciência de Dados da TNC Brasil, explica que a ferramenta permite a combinação de variáveis e a atribuição de pesos de acordo com os objetivos de cada projeto. Um território com áreas de preservação permanente ou cabeceiras de rios degradadas pode ser priorizado, mesmo que não apresente o maior nível de degradação.

Florez ressalta que os resultados matemáticos não substituem as decisões das comunidades. “Se a liderança não quiser ou a iniciativa não estiver entre as prioridades da gestão daquele território, isso deverá ser respeitado”, afirma.

A restauração cultural e alimentar é igualmente relevante. Diana aponta que os povos indígenas possuem um vasto conhecimento sobre sementes, espécies nativas, ciclos naturais e manejo dos solos. As mulheres, em particular, têm um papel crucial na produção de alimentos e na conservação de sementes.

Ela acredita que valorizar esse conhecimento pode ajudar a recuperar espécies e alimentos tradicionais, fortalecer a segurança alimentar e conservar a biodiversidade. “A restauração, portanto, pode ser também um processo de recuperação de conhecimentos, práticas culturais, sementes, alimentos e relações com o território”, complementa.

As ações de restauração devem estar conectadas à prevenção de novos impactos, considerando fatores como gestão ambiental e territorial, disponibilidade de água e vulnerabilidade às mudanças climáticas. Essa abordagem está alinhada à Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e ao Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que visa recuperar 12 milhões de hectares até 2030.

Diana finaliza ressaltando a importância de fortalecer as comunidades. “Um território com uma governança fortalecida e comunidades mais resilientes tem maior capacidade de conservar seus recursos naturais, enfrentar pressões externas e responder aos impactos das mudanças climáticas”, conclui.

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