Cresce o sofrimento emocional entre adolescentes e Brasília ganha programa inédito de cuidado intensivo em saúde mental

A ansiedade, a depressão, os episódios de automutilação e outros transtornos emocionais têm atingido um número cada vez maior de adolescentes no Brasil. O aumento dos casos preocupa especialistas e famílias, que muitas vezes encontram dificuldades para acessar tratamentos capazes de atender jovens em sofrimento intenso sem recorrer à internação psiquiátrica.

É nesse cenário que Brasília passa a contar com o Reconectar, programa de cuidado intensivo em saúde mental voltado para adolescentes a partir dos 12 anos. Desenvolvido pelo Instituto Ser Humano, o serviço será oferecido na nova unidade da Asa Sul e propõe uma alternativa entre o atendimento ambulatorial tradicional e a internação hospitalar.

A iniciativa é resultado da experiência acumulada pelo Instituto, que atua há 15 anos nas áreas de Psicologia, Psiquiatria e Nutrição e mantém, há nove anos, um Hospital Dia para adultos. Com a nova unidade, além da ampliação desse serviço, o foco também passa a contemplar adolescentes que necessitam de um acompanhamento mais intensivo.

Segundo a psicóloga Laura Palhano Ricarte, o projeto foi desenvolvido após um ano de estudos e visitas técnicas a serviços especializados.

“Como profissionais da saúde mental, acompanhamos diariamente o aumento do sofrimento emocional entre adolescentes e também a angústia das famílias, que muitas vezes não sabem mais como ajudá-los. Percebemos que havia um vazio entre o acompanhamento convencional e a internação psiquiátrica. O Reconectar foi criado justamente para oferecer um cuidado intensivo, ético, humanizado e especializado, capaz de acolher o adolescente nesse momento de crise e ajudá-lo a reconstruir seu projeto de vida.”

O aumento dos transtornos mentais entre adolescentes também é apontado por organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS), UNICEF, OCDE e a Comissão da The Lancet Psychiatry. Na prática clínica, segundo os profissionais da área, muitos jovens apresentam um sofrimento que já ultrapassa a capacidade do modelo tradicional de atendimento, normalmente baseado em consultas periódicas e sessões semanais de psicoterapia, mas ainda não exige uma internação prolongada.

Tratamento estruturado

O Reconectar foi planejado para durar cerca de seis meses e possui uma metodologia dividida em etapas. Durante o período, os adolescentes participam de atendimentos individuais e atividades em grupo voltadas ao autoconhecimento, à regulação emocional, ao fortalecimento das habilidades sociais e ao desenvolvimento de estratégias para enfrentar o sofrimento psíquico.

O atendimento é realizado por uma equipe multidisciplinar formada por psicólogos, psiquiatra, nutricionistas, educador físico, musicoterapeuta, arteterapeuta e outros profissionais.

As atividades em grupo são realizadas com número reduzido de participantes, permitindo acompanhamento mais individualizado e um ambiente terapêutico que favorece vínculos, segurança e qualidade no cuidado.

Família participa do tratamento

O programa também envolve pais e responsáveis durante todo o processo terapêutico. Além do acompanhamento do adolescente, a equipe oferece orientação às famílias, fortalecendo a rede de apoio e contribuindo para a recuperação.

Estrutura especializada

A nova unidade foi planejada para atender diferentes necessidades do tratamento e conta com salas para grupos terapêuticos, atendimentos individuais, manejo de crises, atividades corporais, cozinha terapêutica, enfermagem, espaços de convivência e ambientes destinados a pequenos grupos.

O programa também inclui atividades externas, como encontros no Parque da Cidade, utilizando o contato com a natureza e a prática de exercícios físicos como recursos terapêuticos. Estudos científicos apontam que essas estratégias podem contribuir para a redução do sofrimento emocional, melhorar a regulação das emoções e fortalecer a saúde mental.

Como participar

As famílias interessadas devem procurar o Instituto Ser Humano para realizar uma avaliação clínica inicial. Nessa etapa, a equipe verifica se o modelo terapêutico é o mais indicado para o adolescente.

O Reconectar oferecerá atendimento particular e por convênios. O Instituto também trabalha na implantação de um serviço de atendimento social para ampliar o acesso de famílias em situação de vulnerabilidade.

De acordo com o levantamento realizado pela equipe responsável pelo projeto, não foi identificado em Brasília nem em outras cidades visitadas durante o período de pesquisa um serviço com a mesma proposta assistencial, característica que faz do Reconectar uma iniciativa pioneira no cuidado intensivo em saúde mental para adolescentes.

Redação
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