Cappelli ataca jornalista após pergunta sobre ABDI e precisa ser contido durante debate

Candidato deixou questionamento sobre sua gestão em segundo plano, chamou Andresa Matias de mentirosa, expôs episódio pessoal e insistiu nos ataques mesmo após intervenções da mediadora

Uma pergunta sobre a gestão de Ricardo Cappelli (PSB) na Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) terminou em um dos momentos mais constrangedores do debate entre candidatos ao Governo do Distrito Federal promovido pelo Metrópoles, na noite desta quinta-feira (10/9).

Questionado pela jornalista Andresa Matias sobre investigações relacionadas à sua passagem pela agência, Cappelli reagiu elevando o tom contra a profissional. Em vez de se limitar a responder aos fatos apresentados, chamou a jornalista de mentirosa, questionou sua trajetória profissional, trouxe para o debate um episódio de natureza pessoal entre os dois e contestou repetidamente a escolha dela para fazer a pergunta.

A postura obrigou a mediadora do debate a intervir mais de uma vez, pedindo expressamente que Cappelli parasse de atacar a jornalista e utilizasse seu tempo para responder ao questionamento.

O episódio chama atenção justamente pela posição ocupada por cada um naquele momento. Cappelli estava no palco como candidato ao Governo do Distrito Federal e, portanto, submetido ao escrutínio público. Andresa estava ali no exercício de sua atividade profissional, encarregada de formular uma pergunta ao candidato.

Discordar da premissa, contestar dados apresentados ou apontar eventuais erros da pergunta fazia parte do direito de Cappelli. Transformar a resposta em ataques pessoais à profissional, porém, desviou o debate da questão de interesse público que havia sido colocada.

Pergunta era sobre gestão na ABDI

Andresa questionou Cappelli sobre apurações relacionadas a um possível uso da estrutura da ABDI durante sua gestão para promoção política e atuação nas redes sociais.

A jornalista mencionou Ministério Público, Polícia Federal e Tribunal de Contas da União e afirmou que a Delegacia de Repressão à Corrupção havia ingressado no caso em 2 de julho.

Ao final, fez uma pergunta direta: caso fosse eleito governador, Cappelli reproduziria práticas semelhantes em seu governo?

O candidato tinha dois minutos para responder.

Antes de tratar da questão, porém, Cappelli falou sobre episódios anteriores do debate, solidarizou-se com Paula Belmonte e José Roberto Arruda e criticou Celina Leão por envolver familiares de adversários.

Depois, voltou-se contra a própria jornalista que havia feito a pergunta.

Ataques substituem resposta

Cappelli afirmou que denúncias contra sua gestão haviam partido da senadora Damares Alves e do MDB e sustentou que o Ministério Público já teria arquivado uma das apurações.

Era uma resposta pertinente ao questionamento.

O candidato, no entanto, não parou nesse ponto.

Passou a atacar Andresa pessoalmente, acusando-a de ter produzido uma “fake news” durante sua passagem pelo jornal O Estado de S. Paulo e afirmando que ela teria sido demitida em razão do episódio conhecido como “dama do tráfico”.

Nesse momento, a mediadora interveio.

“Eu peço que o senhor se atenha ao que a jornalista do Metrópoles questionou o senhor e não utilize o seu tempo para fazer ataques à pessoa dela”, advertiu.

Mesmo depois do pedido, Cappelli insistiu.

Disse que Andresa era uma “desafeta” e levou ao debate um episódio pessoal ocorrido, segundo ele, anteriormente.

“Na inauguração da Record News, ela veio me cumprimentar e me chamou de canalha”, afirmou.

A partir daí, o candidato já não discutia apenas a veracidade das informações apresentadas na pergunta. Passava a expor diante do público uma questão pessoal envolvendo a jornalista que estava ali trabalhando.

“Pare de mentir, Andresa”

Andresa recebeu mais 30 segundos e contestou Cappelli.

A jornalista afirmou que nenhuma investigação havia sido arquivada e repetiu a questão sobre a utilização da estrutura da ABDI.

Cappelli voltou a reagir de forma agressiva.

“Pare de mentir, Andresa. Não insista em mentira”, disse.

Mais uma vez, mencionou a passagem da jornalista pelo Estadão e voltou a atacá-la profissionalmente.

A insistência provocou nova intervenção da mediação.

Mediadora precisa defender direito da jornalista de perguntar

Na segunda intervenção, a condução do debate foi ainda mais explícita.

A mediadora lembrou que Andresa Matias é jornalista e colunista do Metrópoles, destacou sua trajetória profissional e afirmou que a pergunta havia sido formulada com apresentação de “dados, fatos, data”.

Também pediu novamente que Cappelli utilizasse o tempo para responder ao questionamento, em vez de atacar a profissional.

A organização ressaltou ainda que o Metrópoles vinha realizando cobertura isonômica dos candidatos e lembrou que o próprio Cappelli mantém relação com o veículo como fonte jornalística.

Mesmo depois dessa segunda intervenção, Cappelli voltou ao assunto pessoal.

“Eu não acho razoável colocar para me perguntar uma jornalista que me xingou. Ela me xingou no mês passado”, afirmou.

O candidato tinha o direito de contestar a pergunta, questionar as informações apresentadas e negar qualquer irregularidade relacionada à ABDI. O que marcou o episódio, porém, foi a insistência em deslocar o confronto dos fatos para a pessoa da jornalista.

Pergunta fica sem resposta direta

Depois das intervenções, Cappelli voltou a falar, mas direcionou boa parte do tempo restante para ataques ao atual Governo do Distrito Federal.

Falou em “roubalheira”, mencionou o BRB, criticou a situação da saúde e da educação e fez acusações contra a gestão atual.

A pergunta originalmente apresentada por Andresa, sobre as práticas atribuídas à sua administração na ABDI e se seriam reproduz

Redação
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