Cappelli não esquece o 8 de janeiro, pede “mudança”, mas defende candidatura de Arruda, condenado por improbidade

Candidato do PSB voltou a apresentar a intervenção federal como uma de suas principais credenciais e surpreendeu ao defender o direito de José Roberto Arruda disputar novamente o Governo do Distrito Federal

Ricardo Cappelli (PSB) entrou no primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Distrito Federal disposto a se apresentar como o nome da “mudança”. Mas, ao longo do confronto realizado pela Band neste domingo (9), protagonizou uma combinação política curiosa: voltou a recorrer ao 8 de janeiro como cartão de visitas e ainda saiu em defesa do direito de José Roberto Arruda (PSD), condenado por improbidade administrativa, disputar a eleição.

A declaração ocorreu quando Cappelli criticava o que classificou como autoritarismo e tentativas de impedir determinadas candidaturas no Distrito Federal.

“Eles são autoritários, se acham donos do Distrito Federal. Querem impedir o Arruda de ser candidato”, afirmou.

Cappelli defendeu que seja o eleitor do Distrito Federal quem escolha nas urnas o próximo governador.

A defesa de um processo eleitoral aberto é legítima. Politicamente, porém, a escolha de Arruda como exemplo chama atenção.

O ex-governador não é apenas um personagem da política brasiliense. É adversário direto de Cappelli na corrida pelo Palácio do Buriti e carrega condenações por improbidade administrativa relacionadas à Operação Caixa de Pandora.

Em junho deste ano, a 6ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios manteve uma condenação de Arruda e outros réus por improbidade administrativa. A decisão também preservou obrigação de ressarcimento ao erário e estabeleceu indenização por danos morais coletivos.

Ou seja: em seu primeiro grande debate televisionado, o candidato que pretende ocupar o espaço da renovação decidiu gastar parte do próprio tempo defendendo o direito eleitoral de um adversário com um conhecido histórico de condenações na Justiça.

O 8 de janeiro continua no discurso

Se a defesa de Arruda chamou atenção, outra característica da participação de Cappelli já é bastante conhecida.

O 8 de janeiro apareceu novamente.

Logo em sua apresentação, Cappelli lembrou que foi nomeado interventor federal na segurança pública do Distrito Federal pelo presidente Lula após os atos de 8 de janeiro de 2023.

A experiência é relevante e faz parte de sua trajetória administrativa. O que chama atenção é a frequência com que a missão extraordinária continua sendo utilizada como uma das principais credenciais para a disputa pelo comando permanente do GDF.

Até quando o assunto foi saúde, Cappelli transportou para o setor a linguagem da experiência de 2023. Prometeu promover uma “intervenção” na área caso seja eleito governador.

O interventor, portanto, continua acompanhando o candidato.

Passados mais de três anos daqueles acontecimentos, Cappelli ainda precisa convencer o eleitor de que sua experiência no Distrito Federal vai além da missão temporária que exerceu na segurança pública.

De “forasteiro” a “mudança”

Essa fragilidade foi explorada diretamente por Celina Leão (PP).

Durante um dos confrontos mais duros da noite, a governadora lembrou as tentativas eleitorais anteriores de Cappelli fora do Distrito Federal e o chamou de “forasteiro”.

Cappelli reagiu afirmando que não ter participado dos grupos políticos tradicionais do DF seria justamente uma de suas qualidades. Disse não fazer parte do que chamou de “panela política” brasiliense e tentou transformar a crítica em argumento favorável à própria candidatura.

A estratégia é clara: apresentar-se como alguém de fora das estruturas tradicionais para reivindicar o espaço da renovação.

Mas foi justamente aí que a defesa de Arruda criou o contraste político mais evidente.

Cappelli quer ser o candidato que não pertence à velha política local, mas saiu em defesa do direito de um ex-governador, condenado por improbidade administrativa, retornar à disputa pelo mesmo Palácio do Buriti que pretende comandar.

“Pode me chamar de mudança”

Nas considerações finais, Cappelli tentou deixar pronta a mensagem que gostaria de carregar para o restante da campanha.

Pediu uma oportunidade ao eleitor, falou em coragem e afirmou que Brasília precisa voltar a andar para frente.

Então encerrou:

“Meu nome é Ricardo Cappelli, mas pode me chamar de mudança, de coragem.”

A frase foi pensada para resumir sua candidatura.

O debate, porém, produziu uma síntese mais complexa.

Cappelli quer ser chamado de mudança, continua recorrendo ao 8 de janeiro como uma de suas principais credenciais e, quando teve a oportunidade de discutir democracia e candidaturas, resolveu sair em defesa do direito de José Roberto Arruda voltar às urnas.

Defender o direito de qualquer candidato se submeter às regras eleitorais não significa apoiar politicamente esse candidato.

Mas, em política, o gesto e o momento também contam.

 

Redação
Redação
A Redação do Repórter Capital é o perfil editorial utilizado para a publicação de conteúdos informativos e de utilidade pública. As matérias assinadas por este usuário seguem a linha jornalística do portal, com foco em Brasília e no Distrito Federal, priorizando informações relevantes, atualizadas e de interesse direto da população.

CONTINUE LENDO

- PUBLICIDADE -

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

- PUBLICIDADE -