Relatório revela que 189 profissionais de imprensa foram mortos entre 2024 e 2025; 67% das mortes ocorreram em zonas de conflito e 86% dos casos registrados desde 2006 seguem sem solução confirmada.
A violência contra profissionais de imprensa atingiu um patamar alarmante no mundo. Um levantamento divulgado nesta segunda-feira (2/11) pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) revela que 189 jornalistas foram assassinados entre 2024 e 2025, o maior número registrado pela organização em uma década.
Os dados fazem parte do Relatório sobre a Segurança de Jornalistas e o Perigo da Impunidade, que aponta um agravamento dos riscos enfrentados por profissionais responsáveis pela cobertura de guerras, política, criminalidade e corrupção.
O número de assassinatos é o maior desde o biênio 2014/2015, quando 215 jornalistas foram mortos.
Guerras concentram quase 70% das mortes
Segundo a Unesco, 127 jornalistas foram assassinados em países considerados zonas de conflito, o equivalente a 67% do total. O número representa um aumento de 24% em comparação com o biênio 2022/2023.
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Entre os casos registrados, 50 profissionais morreram em ataques com drones. Outros 36 foram mortos em ataques contra escritórios de veículos de comunicação ou instalações que abrigavam jornalistas.
O levantamento identificou ainda pelo menos 15 situações em que profissionais foram atingidos mesmo utilizando coletes com a identificação de imprensa ou circulando em veículos claramente identificados.
A Palestina concentrou o maior número de mortes, com 62 jornalistas assassinados, aproximadamente um terço de todas as vítimas registradas no período.
Cobertura política e investigações também representam riscos
Embora os conflitos armados tenham concentrado a maioria dos assassinatos, o relatório demonstra que a violência contra jornalistas não está restrita às guerras.
Das 189 mortes registradas, 104 ocorreram durante a cobertura de conflitos armados. Outras 38 envolveram profissionais que trabalhavam com assuntos políticos, enquanto 22 estavam relacionadas à cobertura de atividades criminosas.
Também houve registros de assassinatos de jornalistas envolvidos em reportagens sobre corrupção.
Fora das zonas de conflito, foram contabilizadas 62 mortes, o menor número para esse grupo em 18 anos.
A Unesco alerta que jornalistas também enfrentam ameaças, sequestros, desaparecimentos forçados, prisões arbitrárias e ataques virtuais, incluindo violência direcionada às mulheres que atuam na imprensa.
Mulheres e jovens estão entre as vítimas
O relatório identificou 14 mulheres entre os 189 jornalistas assassinados, aproximadamente 7% do total. Treze delas morreram em países classificados como zonas de conflito.
Entre as vítimas, cinco tinham entre 15 e 24 anos, enquanto outras 20 estavam na faixa etária de 25 a 29 anos.
Os dados evidenciam que profissionais em diferentes fases da carreira estão expostos à violência no exercício da atividade jornalística.
Impunidade chega a 86% dos casos
Outro dado preocupante apresentado pela Unesco é a dificuldade de responsabilizar os autores dos crimes.
Desde 2006, a organização contabilizou 1.641 jornalistas assassinados em todo o mundo. Desse total, apenas 223 casos, equivalentes a 14%, foram solucionados pelo sistema judiciário.
Outros 1.013 assassinatos permanecem sem solução, enquanto em 321 ocorrências as autoridades nacionais não forneceram informações sobre o andamento das investigações.
Considerando os crimes não solucionados e aqueles sem resposta oficial, o índice de impunidade chegou a 86% em 2026, um ponto percentual acima do registrado em 2024.
Segundo a Unesco, essa foi a primeira elevação do indicador desde 2012.
A organização ressalta que proteger jornalistas e responsabilizar os autores dos assassinatos são medidas fundamentais para garantir a liberdade de expressão e o direito da sociedade à informação.
Brasil registrou um jornalista assassinado
No Brasil, o relatório contabilizou uma morte no biênio 2024/2025.
A vítima foi o radialista Luís Augusto Carneiro da Costa, conhecido como Luisinho Costa, assassinado em maio de 2025 dentro do estúdio da Rádio Guarany, em Abaetetuba, no nordeste do Pará.
Segundo a Polícia Civil paraense, a investigação foi concluída e encaminhada à Justiça, com quatro pessoas indiciadas.
O Brasil também informou à Unesco a adoção do Protocolo Nacional para a Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, lançado em abril de 2026 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.
A iniciativa estabelece diretrizes para a apuração de crimes contra profissionais da comunicação e passou a integrar o repositório de mecanismos nacionais de segurança da organização internacional.
Para a Unesco, combater a violência e a impunidade é essencial não apenas para proteger os profissionais da imprensa, mas também para assegurar que a população continue tendo acesso a informações de interesse público.
