O orçamento também fala: deputados distritais destinaram três vezes mais em emendas para Cultura e Turismo do que para a Saúde no DF

Fiscalizar o Governo do Distrito Federal é uma das principais atribuições dos deputados distritais. Cabe aos parlamentares acompanhar a execução das políticas públicas, cobrar resultados, propor soluções, promover debates e exercer o controle sobre a atuação do Poder Executivo.

Mas a atividade parlamentar vai além da fiscalização.

Todos os anos, cada deputado também participa diretamente da definição de uma parcela do orçamento público por meio das emendas parlamentares individuais. É nesse momento que cada mandato transforma prioridades políticas em escolhas concretas, indicando quais áreas, programas e projetos deverão receber recursos públicos.

As emendas não substituem o planejamento orçamentário do Governo do Distrito Federal nem representam o orçamento total das políticas públicas. Elas revelam, porém, como os próprios parlamentares decidiram distribuir a parcela do orçamento sobre a qual possuem poder direto de indicação.

Foi justamente esse recorte que o Repórter Capital decidiu analisar.

O objetivo foi verificar como os próprios parlamentares distribuíram a parcela do orçamento sobre a qual exercem poder direto de decisão.

Com base em dados oficiais do Sistema de Controle de Emendas Parlamentares (Siscon-EP), a reportagem levantou todas as emendas destinadas, entre 2024 e 2026, ao Fundo de Saúde do Distrito Federal, à Fundação Hemocentro de Brasília, à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa e à Secretaria de Estado de Turismo.

O levantamento, que considera exclusivamente o campo “Valor da Emenda”, mostra uma diferença expressiva na distribuição desses recursos.

Enquanto as unidades de Saúde analisadas receberam R$ 159.881.899,00, Cultura e Turismo concentraram R$ 551.242.036,16 em emendas parlamentares.

Na prática, isso significa que, ao longo dos últimos três exercícios orçamentários, os deputados distritais destinaram aproximadamente 3,45 vezes mais recursos para Cultura e Turismo do que para a Saúde — uma diferença de R$ 391.360.137,16.

Mais do que estabelecer uma comparação entre políticas públicas, os números revelam as prioridades orçamentárias adotadas pelos próprios parlamentares no exercício de uma de suas atribuições constitucionais: a destinação de emendas individuais.

A fotografia das emendas

Área analisada Emendas parlamentares (2024–2026)
Saúde (Fundo de Saúde + Hemocentro) R$ 159.881.899,00
Cultura R$ 267.408.396,16
Turismo R$ 283.833.640,00
Cultura + Turismo R$ 551.242.036,16
Diferença para a Saúde R$ 391.360.137,16
Total das três áreas R$ 711.123.935,16

Distribuição das emendas revela prioridades distintas

Embora o levantamento mostre que, no conjunto, Cultura e Turismo receberam um volume de recursos significativamente superior ao destinado às unidades de Saúde analisadas, a distribuição das emendas variou bastante entre os deputados distritais.

Alguns parlamentares fizeram da Saúde uma de suas principais prioridades na destinação das emendas. O principal exemplo é Jorge Vianna, que destinou R$ 39,43 milhões ao Fundo de Saúde do Distrito Federal. No mesmo período, também direcionou R$ 6,90 milhões para a Cultura e R$ 5,41 milhões para o Turismo.

Outro caso é o de Fábio Felix, que apresentou uma distribuição mais equilibrada entre as áreas analisadas. Ao longo dos três exercícios, destinou R$ 18,92 milhões para a Saúde, R$ 19,56 milhões para a Cultura e R$ 250 mil para o Turismo.

Em contrapartida, outros parlamentares concentraram suas emendas principalmente em Cultura e Turismo.

É o caso de Daniel Donizet, que destinou R$ 13,17 milhões para a Cultura e R$ 28,69 milhões para o Turismo, sem registrar emendas para as unidades orçamentárias da Saúde consideradas neste levantamento.

Situação semelhante é observada com Iolando, que direcionou R$ 17,90 milhões para a Cultura, R$ 32,29 milhões para o Turismo e R$ 300 mil para a Saúde.

Joaquim Roriz Neto destinou R$ 33,94 milhões para o Turismo, R$ 16,67 milhões para a Cultura e R$ 1,25 milhão para a Saúde.

O deputado Pepa direcionou R$ 29,33 milhões para o Turismo, R$ 6,55 milhões para a Cultura e R$ 4,5 milhões para a Saúde.

Também chama a atenção o caso de Hermeto, que distribuiu R$ 15,26 milhões para o Turismo, R$ 14,80 milhões para a Cultura e R$ 1 milhão para a Saúde.

Esses exemplos mostram que não houve um padrão único de destinação das emendas parlamentares. Enquanto alguns deputados fizeram da Saúde uma prioridade, outros concentraram a maior parte de seus recursos em Cultura e Turismo. É justamente a soma dessas escolhas individuais que explica o resultado consolidado encontrado pelo levantamento do Repórter Capital.

O papel das emendas

As emendas parlamentares constituem um dos principais instrumentos de atuação do Poder Legislativo na definição do orçamento público.

Por meio delas, os deputados podem direcionar recursos para hospitais, escolas, entidades sociais, obras, projetos esportivos, atividades culturais, eventos turísticos e diversas outras iniciativas de interesse público.

Não existe obrigação legal para que determinado percentual das emendas seja destinado à Saúde, à Cultura ou ao Turismo. Cada parlamentar define suas prioridades conforme as demandas recebidas da população, os compromissos assumidos durante o mandato e sua própria visão sobre as necessidades do Distrito Federal.

Por isso, o levantamento não busca estabelecer uma disputa entre áreas nem avaliar se determinada escolha foi certa ou errada.

Seu objetivo é apresentar, com base em dados oficiais, como os recursos foram distribuídos.

Uma informação que ajuda a compreender o debate público

Nos últimos anos, temas relacionados à saúde pública frequentemente ocuparam espaço nas sessões da Câmara Legislativa, nas audiências públicas e nos debates políticos do Distrito Federal.

Fiscalizar a atuação do Executivo, cobrar melhorias e apresentar propostas faz parte das atribuições constitucionais dos deputados distritais.

Ao mesmo tempo, as emendas parlamentares também fazem parte desse processo, pois representam uma oportunidade concreta de fortalecer determinadas políticas públicas por meio da destinação de recursos.

Nesse contexto, os números levantados pelo Repórter Capital acrescentam um elemento importante ao debate: mostram que, entre 2024 e 2026, Cultura e Turismo receberam, juntas, R$ 551,2 milhões em emendas parlamentares, enquanto o Fundo de Saúde do Distrito Federal recebeu R$ 159,9 milhões, considerando também os recursos destinados à Fundação Hemocentro de Brasília.

Os dados não substituem a discussão sobre o orçamento global do Distrito Federal, tampouco medem a qualidade das políticas públicas executadas pelo governo.

Eles revelam uma informação objetiva: como os próprios deputados decidiram distribuir a parcela do orçamento que esteve sob sua responsabilidade direta.

Essa é uma informação de interesse público e contribui para ampliar a transparência sobre as escolhas orçamentárias feitas pelo Poder Legislativo.

Em um sistema democrático, fiscalizar o Executivo é uma das funções do Parlamento. Definir a destinação das emendas é outra. E, como demonstra este levantamento, o orçamento também fala.

Metodologia

O levantamento do Repórter Capital utilizou dados públicos do Sistema de Controle de Emendas Parlamentares (Siscon-EP).

Foram consideradas todas as emendas registradas nos exercícios de 2024, 2025 e 2026 destinadas às seguintes unidades orçamentárias:

  • Fundo de Saúde do Distrito Federal;
  • Fundação Hemocentro de Brasília;
  • Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa;
  • Secretaria de Estado de Turismo.

A apuração considerou exclusivamente o campo “Valor da Emenda”, desconsiderando valores empenhados e liquidados. Também foram excluídas emendas canceladas cujo valor registrado era R$ 0,00.

Como o exercício de 2026 ainda está em andamento, os valores correspondem às emendas cadastradas no sistema até a atualização da base consultada (16 de julho de 2026) e não representam, necessariamente, recursos já executados.

Ana Paula Alves
Ana Paula Alves
Ana Paula Alves é jornalista, especialista em jornalismo investigativo e editora-chefe do Repórter Capital, com mais de 20 anos de experiência na cobertura de Brasília e do Distrito Federal. Atua principalmente em segurança pública, política local e informação de utilidade pública, com foco em apuração rigorosa e produção de conteúdo relevante para a população.

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